A Globo me chamou pra falar do trenzinho da Cantareira. Quem recusa o convite de uma vênus platinada e madura? Eu não, incontinenti fui. Tem a ver com o aniver da cidade, 470 anos semana que vem. Bem, a linha tinha três nomes: aquele, o oficial Tramway da Cantareira, e o mais querido de todos, Trem das Onze. E era esse que interessava o repórter do Antena Paulista. Não adiantou eu decorar datas: a linha-tronco para o Tremembé em 1893, o ramal para o Jaçanã em 1910, e tudo virou história em 31 de Maio de 1965. E pó (pelo menos a estação Jaçanã) em 1966. Ele não perguntou isso. Fez perguntas amplas, filosóficas, que respondi gostosa mas frustradamente. Só quando ele perguntou "e aí, existia mesmo o trem das 11 horas?" Aí orgulhosamente tirei da mochila o Guia Levy 1960, com a grade de horários do trenzinho em todas as estações, nos dois sentidos, tipo linha de trem italiana, a mais pontual do mundo. Não existiu. A última composição saía da estação Tamanduateí às 9 da noite, o que, convenhamos, não daria nenhum charme à canção. "Se eu perder esse trem, que sai agora as 9 horas...", podia perder e umas 9h30 partir a pé que chegava, cansado, mas chegava no Jaçanã. Já 11h é outra boemia... E por que Jaçanã? Isso eu sabia, mas deixei o sobrinho do Adoniran falar. Sérgio Rubinato, 79 anos, um conversador animado, fiquei batendo papo com ele enquanto a equipe filmava dentro do Museu do Jaçanã, e voltava triste: o museu, ao lado de onde ficava a estação, está um bagaço, sofrendo furto atrás de furto... Sérgio contou que tem coisas do Adoniran espalhadas por vários museus, mas um museu só dele, no Brasil não tem. Só em Israel (aqui), o filho do Sérgio, sobrinho-neto do compositor, foi na inauguração... Enfim, por que Jaçanã? Morar, Adoniran só morou na rua Aurora e na Cidade Ademar. Se fosse pela rima com "só amanhã de manhã", poderia ser Butantã ou Sacomã, mas nã. O Jaçanã ele frequentava. Lá ficava a Cinematográfica Maristela (aqui), onde Adoniran fez ponta e protagonismo em vários filmes. Mas isso é pouco, é fatual, o que conta é a poesia: só o Jaçanã tinha uma estação de trem pra chamar de sua.
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| São sempre 11 horas no relógio do Museu do Jaçanã |

















