domingo, 21 de agosto de 2022

LENDO.ORG (56)

Não existe paulistano que não tenha lembranças e histórias de shopping pra contar. Aos montes, eu diria. A cidade foi desprestigiando as lojas de rua (quem lembra do comércio da rua Direita, da Barão de Itapetininga ou da rua Augusta?), e foi pipocando shoppings...  Eles já quase fazem parte do nosso DNA. OK, tem coisas que facilita mesmo ir a um shopping pra comprar.  Fiz isso ontem. Deu certo, comparei lojas, comprei, aí fui procurar a livraria...  O que?, não tem??  Bem, eu sabia que a bela e ampla livraria Cultura do shopping Bourbon tinha sido fechada, mas não colocaram nenhuma pra substituir?  Shopping chique e cheio, milhares de pessoas "de nível" circulando, centenas de lojas, e nenhuma livraria?  Ah, decidi conferir a situação disso no shopping West Plaza, tadinho, tão esquecido depois da construção do concorrente, afinal são separados por uma reta de 500 metros, ambos bem grandes mas, 17 anos mais velho (1991 X 2008), este não é páreo para o luxo daquele. Fui a pé, entrei, cliquei no totem, anunciou a livraria Leitura.  Ah, a Leitura é a livraria com mais lojas no Brasil, mas deve ser uma livraria meia-boca, afinal esse shopping vive vazio...  Que nada!  A Leitura do West Plaza me surpreendeu pelo tamanho e pelo acervo de livros. E, durante a hora que fiquei lá, proporcionalmente tinha mais gente na livraria do que nos corredores...  Fiquei satisfeito.  Depois fiquei pensando, o shopping chique não tem livraria... Sinal dos tempos? Será que nunca vai dar pela falta?

Na livraria Leitura do West Plaza ontem.



segunda-feira, 8 de agosto de 2022

SAUDADES... (48)

Quando gênios se encontram, saem coisas geniais.  Imagine Jô Soares recitando Álvaro de Campos, o heterônimo mais dramático e radical de Fernando Pessoa.  É emoção pura!  A declamação do Jô vira um monólogo teatral.  Está no LP "A Música em Pessoa", que guardo comigo apesar de há muito não ter mais toca-discos, mas a santa Internet permite ouvir a voz do Jô aqui. Seu sotaque está tão lusitano que cabe acompanhar o texto da poesia aqui.  Fone de ouvido, por favor, para nada perder da grandeza do gordo. Saudades...  
Trecho do encarte do LP "A Música em Pessoa". 


quinta-feira, 28 de julho de 2022

LIXA GROSSA & CIA LTDA (60)

O texto de Eugênio Bucci é primoroso e está aqui.  Mas segue abaixo na íntegra, porque é imperdível. 

E A CANETA BIC?
 
Depois que tudo isso acabar – e uma hora ou outra isso tudo vai acabar, vai ter de acabar –, o que terá sido da imagem da velha caneta BIC? Ela, com seu plástico transparente sextavado, sua tampinha azul, quem é que vai resgatá-la do lixo da História? O uso insistente e ofensivo que o presidente da República vem fazendo da pobrezinha, existirá saída para tamanho enxovalho?
 
Que destino dilacerante foi sobrar para ela. A toda cerimônia oficial, essas que são emolduradas pelo mármore branco do Palácio do Planalto, com as cores do Brasão da República ao fundo, ou ao lado, ou acima, ou abaixo, lá vem o sujeito espalhafatoso e falastrão, arreganhos como se fossem sorrisos, sacando uma BIC do bolso para assinar isto e mais aquilo, diante de todo mundo. Tem sido assim com tanta frequência, com tanta desfaçatez, que a gente morre de dó, de constrangimento e de vergonha.
 
Incrível que ninguém tenha protestado contra o sequestro. Lá está ela, indefesa, no noticiário de todo dia, emprestando sua tinta inocente para atos contra as florestas, contra os povos originários, contra a paz, todo tipo de atrocidade. Que tristeza. Logo ela, que não tinha nada que ver com isso. Justo ela: não é justo.
 
Deveríamos pensar mais sobre o assunto. Pouca coisa diz tanto sobre o esgoto brasileiro como a usurpação serial da velha esferográfica. Por que o chefe de Estado resolveu tomá-la por prolongamento fálico? O que ia em sua cabeça, onde nada vai de bom? A resposta é simples, embora desoladora.
 
A BIC é uma ferramenta perfeitamente fungível. É a pena desprovida de individualidade, mais ou menos como um hambúrguer de fast food ou um pedaço de giz. Ninguém herda uma BIC do pai. Ninguém guarda uma BIC de lembrança, pois não há nada nela que a diferencie de qualquer outra igual a ela. A BIC é como botijão de gás. Um casco de cerveja. Se três pessoas misturam suas BICs numa reunião, nenhuma delas saberá direito qual era a sua.
 
O mais intrigante é que, graças à sua fungibilidade, sua impessoalidade extrema, ela fez muito pela escola. Ajudou a alfabetizar pessoas, tornou a escrita, de algum modo, um pouco mais acessível: a promoção das crianças que aprendiam a escrever a lápis e, depois, podiam passar para a caneta ficou mais em conta. E como era solene desenhar as letras a tinta, mesmo que a tinta fosse de uma BIC. Como era bom ir com a mesma BIC até o fim da carga. Quando ela falhava, bastava aproximar a esfera de uma chama de palito de fósforo, com cuidado para que a ponta não derretesse. Dava certo.
 
Surgiram marcas de imitação. Ruins. Houve, também, um tempo em que lançaram inovações de alto luxo, como a BIC Clic, mas nada superou a original. A BIC era boa porque era de todos. Pobres e ricos escreviam com ela. Se havia um objeto que atravessava as classes sociais sem incomodar nenhuma delas, esse objeto era a BIC. Padres usavam BICs. Presidiários. Advogados. Prostitutas. Adolescentes. Até analfabetos. Usava-se o tubinho da BIC para traqueostomia e salvar vidas. Usava-se o mesmo tubinho para cuspir bolinhas de papel mastigado nos colegas de classe. A BIC era democrática – isso antes de a democracia entrar em implosão de dentro para fora.
 
Então, veio este tipo aí – este mesmo em quem você pensou, este que aí está, este aí. Por que ele escolheu a BIC para Cristo? (Voltemos à pergunta, que ficou esquecida lá atrás.)
 
Não, não foi pelo que ela tinha de barato e de bom, mas pelo que ela tinha de barateado e de vil. Ele a escolheu para mostrar que nunca, jamais, em nenhum momento, nenhum dia, nenhuma tarde, nunca mesmo, a afeição lhe passou pela caligrafia. Ele não teve uma superstição com canetas. Nem mesmo simpatia ele teve, tem ou terá. Ele não sabe o que é isso. Nem saberá. Outros podem gostar de sentir a pena da tinteiro deslizando sobre a rugosidade do craft ou do canson. Ele, não. Outros podem achar que autografar um livro com aquela mesma ponta porosa vai dar sorte. Ele não (vai sem vírgula). Outros podem pressentir no dorso de uma roller antiga as digitais ainda quentes de um escriba que já se foi. Ele não.
 
Sempre assim: ele não, ele não, ele não. Para ele, a escrita é vazia de simbólico e de espírito – e a BIC é uma forma de declarar que a caneta vale menos que uma arma de fogo. Em se tratando de armamentos, o tal deve distinguir modelos, deve ter preferências e até estimações; deve saber a diferença entre fuzil, cartucheira, carabina, rifle e espingarda. Quanto às canetas, para ele, são todas indistintas: tudo a mesma porcaria, todas BICs, todas genéricas. Ele assina os decretos como quem desfere um tapa na cara de alguém que preze a cultura, pois vê a cultura como um entulho descartável, como uma caneta descartável. Ele escolheu a BIC para dizer que descarta a cultura.
 
Onde a BIC significava simplicidade, ele inventou a representação do desprezo, e com seu desprezo humilha as letras, o saber, a compaixão, a democracia e a criança que a gente é até hoje, quando pergunta: o que vai ser da nossa BIC?


sábado, 23 de julho de 2022

LANCES URBANOS (77)

Nasci na rua 25 de Março nº 171, prédio Alice, em 1963. Era atravessar a rua Hércules Florence e dar de cara com o majestoso parque Dom Pedro II ainda florido. Mas veio 1970, as obras do metrô começaram, os ônibus da praça Clóvis desceram para o parque, os jardins viraram terminal de ônibus e a região toda começou a degradar, já são 50 anos de abandono. Por isso vejo com interesse a proposta da prefeitura de parceria público-privada para recuperar essa área fundamental para a qualidade de vida paulistana. O plano propõe grandes modificações. Até o enorme quartel do Exército, em ruínas, seria recuperado (detalhes na matéria aqui). Só que (claro que tem um grande "só que") como coloquei na cartinha de hoje no Estadão impresso, trata-se de um grande projeto de médio e longo prazos. E o agora? E o necessário curto prazo, em um Centro Velho e Novo que está tão decadente, tão caído? Vou dizer, ele está tão abandonado, tão esvaziado, que fica até mais fácil intervir e ir construindo recuperação. Acredito piamente na capacidade humana de se unir, com diálogo, em parceria, e ir construindo coisas positivas. O Centro já teve algo assim nos anos 1990, com a operação Viva o Centro. É nessa linha, envolvendo dezenas de grandes (e pequenos) "players" que ainda estão no Centro, como OAB, CEF, TJ, Associação Comercial, braços culturais do BB e do Santander, UNESP, SESCs, Catedral da Sé, Bovespa (!), etc, etc. É a sociedade civil se mexer e orquestrar a recuperação, sem esquecer o social, que é o calcanhar de Aquiles de qualquer proposta para os Centros. Dá pra fazer. Eu acredito!
Estadão impresso de 23/07/22


quarta-feira, 13 de julho de 2022

LANCES URBANOS (76)

Fui avisado que uma edificação está sendo construída no Parque do Ibirapuera.  Incrédulo, fui conferir com os próprios olhos, afinal prédios pipocam pela cidade, mas dentro do Ibirapuera eu achava inconcebível. Que nada! Neste país nada mais surpreende, exceto a passividade com que admitimos tudo. Dois operários da obra e um vigia disseram que seria uma "academia". Claro que fiquei mal e mandei mensagem para a concessionária que desde 2020 administra o parque, a Urbia (aqui).  A assessoria de comunicação respondeu literalmente assim:  A construção não abrigará uma academia. No local, será construído um centro de apoio e fomento à prática esportiva no parque Ibirapuera. Os usuários terão acesso a mais banheiros e também à vestiários com chuveiros. Haverá lockers para armazenar pertences pessoais com segurança. Outra comodidade está a possibilidade de alugar ou adquirir acessórios para as variadas práticas esportivas como bolas, redes, raquetes e até skate e patins bem como equipamentos de proteção individual como capacetes. Uma nova estação de aluguel de bicicletas também está contemplada.  A previsão para a entrega do local é em 2023.  Aí perguntei qual autorização foi obtida para essa construção.  E a resposta literalmente foi: Estamos construindo em um local que já existia um prédio. Estamos seguindo o plano diretor.  Quando perguntei qual plano diretor, não tive resposta. O fato é que o Parque do Ibirapuera, criado há 68 anos, ficou pequeno para tamanho atual da cidade e sua demanda. Sendo tombado, nada se constrói ali sem muita análise e debate. Mesmo a construção do auditório, em 2005, foi alvo de muita polêmica (aqui) e olha que ele fazia parte do projeto original do Niemeyer, e houve compensações ambientais dentro do parque. Não ser uma "academia", como os boatos disseram, menos mal. Porém segue o inconformismo de ver um prédio surgir DENTRO do oásis verde nº 1 da cidade. Contramão total!

Prédio em construção no Parque do Ibirapuera (07/2022)



terça-feira, 5 de julho de 2022

LENDO.ORG (55)

Bienal do Livro se define em uma palavra: alegria. E é contagiante.  Não se vê pessoa com cara franzida, e olha que vai gente.  Fui na 2ª-feira cedo, pensando em encontrar vazia, mas que nada!  Já à chegada, 9h30, super-movimento, fiquei surpreso, depois entendi:  a prefeitura de São Paulo entregou mais de 90 mil vales-livros de R$ 60 para alunos e professores da rede pública (aqui).  Conta simples, um investimento de R$ 5,5 milhões. Então era um enxame de crianças e jovens carregando sacolinhas de livros...  Coisa rara, o carregar sacolinhas, para esses jovens das escola públicas, cujas famílias andam tão sofridas...  Eu, como sempre, me esbaldei.  Na verdade gastei pouco, porque umas 4 livrarias de desconto tinham livros muito interessantes por R$ 10 ou R$ 20. São as livrarias que trabalham com as pontas de estoque (ou fundo de catálogo) das editoras.  Nas Bienais elas esvaziam os depósitos, para alegria de milhares de leitores-garimpeiros, olhos e cotovelos à cata de bons títulos. As editoras se seguraram, mas no último fim de semana devem caprichar nos descontos. Só que encarar a muvuca vai ser coisa pra corajosos.  Dica: a Bienal oferece ônibus gratuito saindo da rua Voluntários da Pátria, atrás da estação Tietê do metrô. Usei, porque estacionamento a preço fixo de R$ 60 no Expo Center Norte é sacanagem!

Crianças comprando livros: pura alegria.



sexta-feira, 10 de junho de 2022

LENDO.ORG (54)

Todo mundo já foi ao menos uma vez à USP, à Cidade Universitária.  Mas quem já esteve na USP Leste?  Precisou ter uma feira do livro lá, para eu nem pestanejar, afinal esse campus, inaugurado em 2005, fica em Ermelino Matarazzo, no km 17 da Rodovia Ayrton Senna.  Valeu demais ter ido.  Livros com 50% de desconto são uma delícia, me esbaldo!  Mas conhecer um campus bem equipado, com prédios grandes, bem espaçados, com muito verde e gramados em volta, me deixou até orgulhoso.  Foi bem bolado criar um campus da principal universidade do país, na Zona Leste.  Fiz PUC, é verdade, mas tem um pouco de todos nós, contribuintes, na USP. 


segunda-feira, 6 de junho de 2022

LIXA GROSSA & CIA LTDA (59)

Mil vezes prefiro o triste 13 ao nefasto 17, mas acho que uma 3ª via encorpada ainda pode se viabilizar, conforme essa cartinha que saiu no Estadão impresso de ontem.  Acho, sonho e desejo.
Estadão impresso de 05/06/22


domingo, 5 de junho de 2022

SAUDADE... (47)

Em Maio se foi Alan White, principal baterista nos 54 anos de vida da minha banda de rock preferida, disparado, o Yes.   Alan e o baixista Chris Squire foram ao programa do Ronnie Von (aqui) divulgar a passagem da banda pelo Brasil em 2013, creio que a última vez que estiveram aqui (fui à primeira delas no Rock´n Rio I, 1984).  Quis o destino que exatamente Alan e Chris fossem os dois primeiros da banda a partir.  O baixista em 2015, e agora o batera, há menos de um mês.  O Yes é tida como a maior banda de rock progressivo.  Sou suspeitíssimo pra falar pois, claro, concordo.  Um solo de Alan White aqui.  Saudades...
Alan White (1949-2022), Squire e Ronnie Von em 2013. 


quinta-feira, 2 de junho de 2022

SHOW DE BOLA! (110)

Um grande honra ser recebido pelo historiador Boris Fausto em seu escritório no Butantã. Cheguei com máscara, e ele todo lépido disse que podíamos dispensar, afinal tomou as 4 doses da vacina...  E assim o papo esticou, com muitas memórias de uma longa vida dedicada ao saber, à pesquisa e sobretudo à observação.  Muito do que ele relembrou eu já sabia, sempre digo a ele que talvez saiba mais da vida dele do que ele mesmo, afinal li e reli os seus 4 livros de memórias.  Tudo começou com o Memórias de um Historiador de Domingo, que amei, e busquei os outros.  Formado em Direito, a História entrou depois em sua vida, e entrou pra valer.  Levei 7 livros do homem pra autografar (foi mais pra ele ver, 5 já estavam autografados!  rsrs).  Não levei o História do Brasil, a mochila ficaria muito pesada...  Aos 91, segue com o humor rápido e elegante que marca seus deliciosos textos memorialísticos.  Vida longa ao Boris!  Combinamos uma champanhe lá em Outubro, mais tardar Novembro, pra brindar a saída do nefasto. 



terça-feira, 22 de março de 2022

LENDO.ORG (53)

Zweig estava em férias na Bélgica quando a inesperada 1ª Guerra Mundial começou. A ingenuidade acabava ali, e pelos 28 anos seguintes até sua morte foram essa guerra, a hiperinflação alemã, a ascensão do Nazismo, a 2ª GM...  Ele não viu o fim do que descreveu como a "grande noite". 100 anos depois Thomas Friedman pede (aqui) para não sermos ingênuos: hoje o risco do pior cenário existe.  Em 1914 um mero conflito Áustria - Sérvia não poderia ir longe, mas foi, muito mais longe...  Ok, sei, um botão pode acabar com o mundo. E aí?  O que fazer com essa consciência? Bem, eu vou levá-la a se distrair em um longo passeio. E com livros, para expandi-la. Além do austríaco levo o ucraniano Gógol, cujo A Terrível Vingança lerei pela 3ª vez. (Livro que a gente ama a gente lê 3 vezes) Levo Hilda, passarei na terra dela, vou checar a Vila Hilst que está no mapa. E levo Borges, eu disse que esse seria o ano de ler Borges, e há de ser. No caminho muitos sebos agendados... O que não a Rússia, mas Putin, está fazendo, é asqueroso, inominável. Oxalá a viagem não seja interrompida (como o Verão de Zweig) por notícias (mais) tristes.




terça-feira, 1 de março de 2022

SHOW DE BOLA! (109)

Uma vez não basta para visitar a mostra Amazônia, com mais de 200 fotos de Sebastião Salgado. Uma produção grandiosa como merece esse bioma que é um mundo.  Fica a dica:  dedique uma visita para ver as paisagens, em enormes fotos que revelam panoramas e vistas inéditas. Como a mostra (aqui) fica por mais quatro meses (até 03/07) e é gratuita, reserve um outro dia apenas para curtir com vagar as impressionantes fotos de algumas tribos indígenas e suas populações. Para mim essa é a parte principal.  A riqueza das imagens, as informações nos textos e nas legendas, dão uma real "mostra" da diversidade ainda existente, sobrevivente, dos índios na gigantesca Amazônia. Talvez você nunca vá à Amazônia, eu não sei se um dia irei, mas essa mostra está aqui ao lado no Sesc Pompéia e é imperdível. 

Uma das alas da mostra no Sesc Pompéia.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

LENDO.ORG (52)

Rússia, Ucrânia...  Fui a um sebo hoje e falavam lá em guerra...   Lamentável que ainda se pense em fazer guerras: deveriam estar vivas as lembranças de duas guerras mundiais, causadoras de milhões de mortos e feridos. Triste humanidade sem memória. Assim foi que há exatos 80 anos, em 23/02/1942, o escritor Stephan Zweig e esposa Lotte se suicidaram em Petrópolis.  Causa mortis: sim, suicídio.  Razão para isso:  a incapacidade de ver psicopatas arregimentando exércitos pra dominar o mundo, e as dores de uma guerra que se arrastava há 3 anos. Já li duas vezes O Mundo que eu vi, onde Zweig, com muita classe, descreve o final do século 19, após algumas décadas de paz.  Viena e Paris brilhavam artes e luzes, sem que ninguém antevisse o germinar da 1ª Guerra Mundial, fruto da incapacidade da diplomacia para resolver questões entre países.  Semelhante ao que acontece agora? Entre aquele então, e hoje, houve a 2ª Guerra Mundial, que Zweig - profundo humanista  (aqui) - não suportou assistir daqui do Brasil, exilado, não de camarote, porque em qualquer lugar que estivesse o sofrimento seria atroz e o mesmo: ver irmãos se matando sob ordem de líderes psicopatas - o oposto de humanistas.  A história se repete. A desgraça a um passo, com psicopatas no poder. 



terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

SAUDADES... (46)

Há anos repasso na agenda essa frase dele: Bom mesmo é problema na cabeça, sorriso no rosto e paz no coração.  Incrível, ontem mesmo, navegando pela biblioteca no modo "dispensar", peguei o livro do Arnaldo Jabor, hesitei, cambaleei, e pus de volta na prateleira: como não ter um Jabor nessa biblioteca-reta-final-da-vida?  Cara inteligente pra caramba, charmoso pra cacete, viveu na juventude a fase mais dourada que esse Brasil conheceu, o final dos anos 50, e no Rio!, cidade então mais maravilhosa impossível!  Conviveu com belas mulheres (em Eu te Amo viu nuas de perto Sonia Braga e Vera Fischer, quer mais?), casou três vezes (epa!, casar a 3ª vez é burrice, deixa pra lá), opinava em pleno Jornal Nacional (sucesso garantido com sua "vocação para teatralizar seus pontos de vista", diria Ruy Castro),  foi cronista de grandes jornais...  Taí um cara invejável, pensava eu às vezes... Um cara que (verbete na enciclopédia ipanemense, portanto bom nadador), tenho pra mim, aos 81, não conseguiu superar a rebentação dos dois tsunamis que devastaram a sua (nossa) sensibilidade nos últimos anos. Quem o conheceu sabe: morreu engasgado com a situação do país. Seus filmes e livros não deixarão ter saudades, mas desde já deixa...

Arnaldo Jabor (1941 - 2022)


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

LENDO.ORG (51)

Postagem cedinho, pra você poder ir a uma banca de jornal (ainda existe!) e comprar o Estadão.  Hoje, há 100 anos, 11/02/1922, abria a Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal (*), e o Estadão traz um gostoso caderno de 8 páginas sobre o evento que marcou a cultura brasileira.  O grande Ruy Castro contesta, bairrista como todos somos, dizendo que no Rio muito coisa "revolucionária" já acontecia, e que o ibope da Semana de 22 é muito devido ao trabalho dos acadêmicos da USP, por décadas incensando o evento e seus eventuais.  Bom, o caderno comemorativo  traz até matéria falando disso, dos precursores dos Andrades, das Anitas e Tarsilas, dos Brecherets e Villa-Lobos...  Traz indicação de livros, passa um pano geral. Faz tempo que não suja os dedos com jornal impresso?  Vai lá!   (*) O primeiro recital foi dia 13, mas dia 11 inaugurou a exposição de artes plásticas.

Caderno especial no Estadão de 11/02.



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

LANCES URBANOS (75)

Contatado pela produtora do Jornal da Record, de estalo passei 4 pontos de interesse no largo do Arouche:  O Gato que Ri e o La Casserole, restaurantes há 70 anos no local, a sede da Academia Paulista de Letras e o maravilhoso chichá, árvore centenária que é até verbete do wikipedia (aqui).  Depois puxei da estante Paulo Cursino (São Paulo de Outrora) e Roberto Pompeu de Toledo (A Capital da Solidão) pra lembrar sobre o marechal Arouche Rendon, maior político paulistano na virada do séc. 18 para o 19, que em sua chácara em que plantava 40 mil pés de chá abriu um clarão para os militares treinarem artilharia, que viria a ser depois o Largo do Arouche e o resto é história.  Aí fui pra entrevista no largo mesmo.  Cheguei uma hora antes e rodei pelo pedaço.  A entrevista começou, gravei meia hora e no programa apareci 10 segundos (coisa de jornalismo diário).  No jornal falei espremido entre estatísticas de crimes e cenas de trombadinhas e medo no centro (coisa de Record rsrs).  Enfim, veja a matéria aqui, que abriu o jornal.  Confesso que voltei pra casa otimista.  O Arouche é o extremo do Centro Novo, ainda consegue exalar, pra quem tiver nariz pra buscar, aromas dos "bons tempos": os prédios classudos, as atrações citadas e outras (as floriculturas, os vários brechós com coisinhas muito curiosas - comprei uma caixa da série Ally McBeal por 5 reais! - etc).  O que falta lá, como no centro todo?  Falta o povo voltar. Os desabrigados e nóias se destacam no vazio.  E como o povo vai voltar? Primeiro, tem que passar a pandemia, a economia se recuperar, e os milhares de m2 de escritórios fechados voltarem a ser ocupados.  Mas não basta. O povo não vai voltar antes da sociedade civil se unir a empresas e entidades da região, e articularem junto - eu disse juntos - um projeto planejado, realístico, de intervenção no centro, forçando o paquidérmico poder público a se mexer e participar, tornando aos poucos o centro de novo (e velho) convidativo.  Tá tudo lá.  Acho que dá.

Morro de amores por esse chichá no largo do Arouche.


quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

LENDO.ORG (50)

Tem contas que não fecham. Gastei R$ 6 mil em livros em 2021, e li apenas 22 títulos. Resumindo: tive tempo pra comprar, mas não pra ler, livros.  Não há de ser nada, 2022 promete mais tempo para esse que é um dos meus três prazeres sublimes na vida.  É, listo e dou notas para os livros lidos. Por coincidência 11 ficção, 11 não-ficção.  O romance do ano foi Narciso e Goldmund, de Hermann Hesse.  Esse alemão/suíço é meu escritor predileto há anos.  Sabe aquilo? Profundidade psicológica, riqueza espiritual, fôlego narrativo, boas pitadas de erotismo...  Humanista puro, Hesse me puxa lágrimas com frequência.  E em não-ficção, Banzeiro Òkòtó, de Eliane Brum.  Li três livros dessa jornalista gaúcha/paulistana/altamirense neste ano.  Gamei no sua prosa rica em recursos de linguagem, mas sobretudo forte, muito forte, na investigação da realidade.  E a realidade da detonação da Amazônia precisava de um texto assim.  Escrevi no Face que o texto da Brum é uma paulada, alguém disse que é uma alavanca... E é isso mesmo.




quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

LENDO.ORG (49)

Me ocorre que livros ainda são um bom presente pra dar.  Pelo menos eu gosto de receber rsrs.  Confesso, bem pode ser um vale-livro, que é como ganhar de presente dinheiro: o vale se transforma em qualquer livro. Digo "ainda", porque considero que tradições ficam velhas e podem (ou devem) ser superadas.  Só que mude você suas tradições, não me venha mudar as minhas!  rsrs. Cada um tem a sua tradição imutável, e a minha são os livros, que durem para sempre!  E nessas fui a duas livrarias, uma intencionalmente, a Livraria da Tarde, em Pinheiros. Livraria de bairro (aqui), a filial que é matriz, só ela, charmosa, aconchegante, pega-se o livro como em um culto...  E ontem, em um shopping, dei com a Livraria Leitura, hoje a maior rede do Brasil (aqui), 83 lojas, livros empilhados como laranjas ou peixes no Mercadão...  Dois conceitos bem diferentes de fazer a mesma coisa:  aproximar o livro físico - objeto que melhor expressa nossa humanidade - ao leitor.  As duas estavam com bom movimento, nem tudo está perdido.  Considere dar um livro de presente no Natal.  BOAS FESTAS e um 2022 muito feliz pra você!



segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

LANCES URBANOS (74)

Aproveitando o solstício, que é amanhã, registrei essa cena agora há pouco, 19h.  O farol demorou pra abrir, deu tempo de sacar (não o celular) a máquina da cartucheira e clicar.  Quem adivinha que torre é essa?   Confesso que precisei buscar o nome (não no google) no velho guia Abril 2007 da cidade.  Igreja do Calvário.  Rua Cardeal Arcoverde, Pinheiros. Vai ver que é porque nunca entrei, nunca gravei o nome dessa igreja.  Mas gostei da foto.



domingo, 12 de dezembro de 2021

LIXA GROSSA & CIA LTDA (58)

Quando a terra que pariu o nazismo faz uma coligação dessas, plural e arejada, pra tocar a vida pra frente, bate um otimismo na gente.  Social-democratas, verdes e liberais se uniram para conduzir a Alemanha, que nem vinha mal das pernas, longe disso, após um governo centrado e respeitoso como foi o da Angela Merkel.  E a passagem de cargo para o novo chanceler, Olaf Scholz, foi com flores...  Olhando para a nossa terra arrasada, essa união de centro democrático dá uma baita duma inveja.  Vamos conseguir fazer isso aqui?  Jogar os extremos pra escanteio, e governar com e para uma maioria silenciosa, que só quer o mínimo de equilíbrio, sanidade e competência?  Sim, porque estamos no meio do desequilíbrio, da insanidade e da incompetência. Que há de passar!  ET:  a cartinha saiu no Estadão impresso de hoje.  No novo formato o espaço pro leitor ficou menor, tá mais difícil sair, mas essa emplacou!
Estadão impresso de 12/12/21