sexta-feira, 17 de abril de 2026

LENDO.ORG (78)

“Em que bairro você cresceu? Onde estudou?” Quem não começa a entrevista assim, pra mim, é entrevistador meia-boca. É que bom entrevistador sou eu, pros livros da Casa Verde e do Tremembé, antes de mais nada, "onde cresceu?", "onde estudou?" Tem coisa mais importante na vida?  Vamos “abrir os trabalhos” (ne Carla?) assim, pra conhecer a pessoa.  Mandei a entrevista sobre a biblioteca da Bruna Lombardi (aqui) para a lista de todos que amam livros. Giuliano respondeu que ela estudou no Dante... No Dante? Tati Bernardi não perguntou, ok, o foco era (e foi) os livros, mas poderia...  O Dante Alighieri pra mim era sinônimo de alienígenas...  Mackenzie ok, Bandeirantes (depois) ok, mas o Dante (e seus ônibus)...  Nem o Arqui (que nome chique!), nem o Arqui era um Dante...  Porque isso é fundamental. Onde cresceu Bruna Lombardi? Nos Jardins, em Pinheiros?  E você, onde cresceu?  Onde estudou?  Sei quase tudo de você, se me disser...  Escola é tudo. Pra quem tem mais de 60, ter feito escola pública foi ok. Se tem menos, um risco. E assim já se vai meio século de escola pública estrebuchando, precisando renascer (esse é o foco, dona Tabata sem acento!) das cinzas esparramadas... E olha, onde cresceu pesa até menos do que onde estudou, acho. 1977 foi um ano especial, consegui adentrar (vestibulinho) o colegial do Caetano de Campos, ainda na Praça da República. É, sentei onde sentaram Mario de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Emerson Fittipaldi, Rita Lee...  Opa! Urgente! IA desmistifica! Rita Lee não estudou no Caetano, estudou no Liceu Pasteur, na Vila Mariana pertinho de casa.  Quem fez Caetano foram os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista, aí nasceu Os Mutantes e o resto é história... Cecília Mãe, tão paulistana, nasceu em Santo André... de BH! Tem Minas na voz até hoje. Geraldo é muito Moinho Velho, pra lá do Sacomã!  Adriana é Vila Mariana da gema, mas Pio XII (Morumbi) de formação, como é que fica?  Quem vê cara vê formação...  Mas voltando a Bruna (carioca!) e seus livros, era 1981 e comprei pelo Círculo do Livro o No ritmo dessa festa...  Eu ficava coçando aquela capa dura com ranhuras, típico dos livros do Círculo, não entendendo nada (moleque não entende nada!) que história era a daquela jovem mulher linda, famosa, com livro de poesia... O que nasceu primeiro, o livro ou a galinha, ops, a atriz ou a poetisa?  A entrevista diz. Quem lembra dos livros do Círculo?  Do catálogo mensal com as capas, as sinopses e os preços (camaradas)?  Chegavam pelo correio. Eram livros de grande esmero, como hoje são os do CLC, sensacionais (aqui). Leio as crônicas da Tati Bernardi na Folha e confesso que não me comovem. Mas a Bruna, confesso que... ah, a Bruna Patrícia Romilda Maria Teresa Lombardi... 

Tati Bernardi entrevista a deusa (quem disse foi a Tati!) pro UOL.


sexta-feira, 10 de abril de 2026

LANCES URBANOS (107)

Baudelaire piraria em Brasília: Amo as nuvens... as nuvens que passam... longe... lá muito longe... as maravilhosas nuvens!  Se você vê nuvens onde mora, é um felizardo, mas não é como lá: animais e objetos de toda espécie, flocos intergaláticos, cones universais, quadros de Rubens... ah, precisa ser brasiliense de 66 anos (dia 21!) pra ter se acostumado com o espetáculo das nuvens.  Eu (não conhecia!) pirei com elas. Céu de Brasília, traço do arquiteto (Djavan), foi o monumento top-one pra mim. Já embaixo, nas asas ou no Eixo Monumental, colossais, se Niemeyer foi gênio, como definir Lúcio Costa?  Entregou o projeto do Plano-Piloto (ganhou de outros 24) em 1957. Em 1960 viu sua cidade nascer... Dizer o que de JK?  Precisa ser muito recalcado pra não nomear o cara, no mínimo, de estadista (como precisamos! Mais fácil ganhar na mega-sena...).  Audácia, energia e confiança (Andre Malraux, sobre JK, na inauguração). Se o Palmeiras tem mundial ou não, não sei, mas a asa Norte não tem metrô, a asa Sul tem, o que a torna talvez (sem zoeira) o melhor lugar pra se morar no Brasil (urbano). Nas quadras que dão pro “eixão” (14 faixas!), não, que o zumbido de carros (fecha aos Domingos) é altíssimo, mas pra dentro das quadras, morar ali, entre árvores enormes, gramados suntuosos, alamedas infinitas, comercinhos descolados, prédios baixos e sem grades, morar ali é um achado!  De metrô (linha única que bifurca), em uma hora se está em Ceilândia, a cidade-satélite mais distante (talvez), lembra São Miguel Paulista, lembra Grajaú, é longe, é violento (não é!), mas todos podem mamar nos céus e serem (são) felizes. A jovem Ariane trabalha numa padaria da asa e mora em Valparaíso de Goiás, cruza a fronteira interestadual todo dia. Cezar, no cruzamento nº 1 do Plano-Piloto, é um malabarista de mãos cheias de bolas, bastões e facas. Álisson toca aos Sábados no Casarão do Livros. É, violão suave (coisa linda!) no sebo com 200.000 livros em Taguatinga. Novos candangos... O parque Sarah Kubitschek é um Ibirapuera sem grades! O (motel) que acontece lá de madrugada fica entre as árvores e as formigas!  As casas das embaixadas valem uma vista, da rua (com plaquinhas!) se vê as espetaculares mordomias diplomáticas... O lago Paranoá e o Pontão com preços proibitivos pra almoçar (cheio!)...  A livraria Platô (delicinha) e a Livraria da Travessa (deliciozona)...  Do metrô já falei. Tudo é cerrado, mas não vou fechar com a praça do Três (podres) Poderes, fecho com nuvens, grandes como continentes (Jacques Benoit).

Sempre uma obra divina no céu brasiliense...