São Paulo precisa parar! Ou, pelo menos, crescer de forma inteligente, dialogada. No Estadão impresso de hoje.
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| Estadão impresso de 20/10/23 |
Facebook me basta. Insta seria excessivo. No Face já me vem umas coisas incríveis, como essa foto na página do compositor, pra homenagear o mestre. Encontro de dois gigantes que amo. Sobre o professor mineiro, e do mundo, muito já se escreveu. Sobre o compositor alagoano, e do mundo, quando eu aposentar (de vez) escreverei uma biografia, autorizada ou não. Um livrinho de tiragem pequena. Tributo.
No Face do compositor alagoano
A Constituição "Cidadã" completa hoje 35 anos. 1988. Fazia só dois anos da turbulência do Plano Cruzado, tão agitado e caricato quanto o Plano Collor, quatro anos depois. Entre os dois eventos marcantes, a promulgação da nova Constituição, cheia de pompa e circunstância, com uma assembleia constituinte (que chique!) escrevendo suas linhas e páginas. Imagine se fosse hoje, redes sociais azucrinando tudo... Enfim, ela segue aí, alterada por tantas PECs e, ainda assim, segurando as pontas das nossas instituições e liberdades. Experimenta rasgar a Constituição, outras coisas rasgam junto... Pois é, 35 anos. O que você fazia então? Constato que foi um ano-ilha pra mim: 1987, morando em Iguape, nascia a Noah. 1989, morando no Tremembé, nascia a Julia. No meio 1988, morando no Brooklin, estagiando na Volkswagen, nascia a dita Carta Magna... Mudanças fundamentais. E você, diz aí o que fazia em 1988...
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| Ulisses Guimarães e a Carta Magna em 05/10/1988 foto: Arquivo/ Câmara dos Deputados in amaerj.org.br |
Em Dezembro de 81, quando entrei no Fórum João Mendes para o 1º dia de trabalho, ela já estava lá. 40 anos depois aposentei, e ela permaneceu, até que veio a notícia: a Livraria Saraiva da João Mendes fechou definitivo as portas. Eu cantei a bola, aqui. Quando uma livraria abre saldão de 50%, já elvis... Lembro da Freitas Bastos, na 15 de Novembro, e da Duas Cidades, na Bento Freitas, a alegria triste dos compradores, livro pela metade do preço significa livraria com os dias contados... As mega-stores, das quais a Saraiva foi praticamente a pioneira (mas as da Cultura eram imbatíveis) não resistiram à internet e ao celular. Pela internet se compra. Pelo celular se deixa de ler... Tem saída isso? Pra quem acha que tem, restam as pequenas livrarias de bairro. Até aqui na França Pinto tem. Mas adotei a Livraria da Tarde, em Pinheiros. Pago lá os pecados dos livros pechinchados nos sebos, comprando a preço cheio, tendo o prazer de ver os lançamentos, os livros brilhando de novos, os vendedores vocacionados e dedicados, um charme especial... Livraria da Tarde eu disse. Conheça.
Se eu não perguntasse, até agora não saberia o time do meu pai. Um dia perguntei, ele respondeu São Paulo, e não tocou mais no assunto. Assim foi fácil pra dois tios encaminharem meu coração para o Parque São Jorge. Meu irmão Fábio, chuto que foram as amizades - por certo não foi seu Edion - que o tornaram tricolor. O outro irmão, Paulo, palmeirense roxo, tava na fase de ir com a torcida organizada, quando o destino resolveu abduzi-lo da gente, aos 17 anos... Mas gira a manivela pra 40 anos depois, pra agora. Estou hoje, depois de consulta médica, fazendo hora com meu pai pela Vila Bertioga, cantinho do Alto da Mooca, esperando abrir o almoço por quilo na padaria, quando dou com a praça Tristão da Cunha. Pára o carro! Eu não ia tocar no assunto, deixa os tricolores felizes no seu canto, mas olha só essa praça, parece que foi pintada hoje!
Encontrar um parque fechado em plena 4ª-feira é frustrante. Saber que ele está fechado há nove meses é deprê! Eu tinha uma hora livre antes de um compromisso familiar no Alto da Mooca, então pensei em finalmente conhecer o espaço, cujo arvoredo e grafismo na av. Paes de Barros sempre chamou minha atenção. Estacionei, me animei e... burros n'água! Dei com a cara na porta! Refeito do baque, fui dar uma volta no quarteirão (o parque tem 21.000m2, como está nessa simpática matéria AQUI). Em uma banca de revistas colada no muro lateral, soube que está fechado desde Dezembro, e que os moradores reclamam, afinal o bairro não tem parques... Choros trocados, segui, encontrando nos fundos duas grandes unidades de um desconhecido Hospital São Cristóvão. Puxa, pensei, poderia ser parceiro pra manter a área, se a Sabesp não consegue, não tem dinheiro, não tem vontade... Segui, até que quase fechando o contorno, encontrei uma agência de atendimento da dita empresa. Fila, caras tristes com contas na mão, falei ah, vou entrar nessa fila pra reclamar! 20 minutos (que eu queria ter usado passeando no parque) depois, a atendente Amanda nem esboçou surpresa, puxou uma prancheta com uma folha de sulfite e pediu pra eu relatar a reclamação, que ela encaminharia. Relatei. Ela vai encaminhar?
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| Parque na Mooca fechado há 9 meses... |
Serão os últimos dias da Saraiva da João Mendes? Quem fez Direito, quem transitou pelo fórum central nos últimos 40 anos, com certeza tem uma estória pra contar da livraria Saraiva da praça João Mendes... Naquele prédio histórico tão bem conservado, três andares de livros. No térreo temas gerais. No subsolo didáticos. No primeiro andar ala exclusiva para os livros jurídicos, ao lado de um café que teve dias de glamour: belas moças ou elegantes senhoras, alegres jovens ou compenetrados senhores, tomando um capuccino, folheando um livro, batendo papo, paquerando... Assim até um passado recente. Sobreviveu à decadência do Centro, à Amazon e até à pandemia (vaticinei que não reabriria, após meses fechada... como a gente se engana... bem, o café não reabriu.) Então pois é, passei hoje na frente, olhei pra dentro e uma melancólica plaquinha anunciava: todos os livros com 50% de desconto. Ah, puxa!, aquele misto-quente de tristeza e alegria... Já disse, sou um perverso caçador de livrarias com 50% de desconto, a parte da alegria. E sou um consciente de que não devia mais agir assim, já tenho mais livros do que lerei na última reta da vida, a parte da tristeza... Até porque todas as vezes que livrarias colocam seu acervo a 50%, fecham na sequência... Eu não deveria sorrir, mas sorri com 5 livros na sacola... Não sei até quando vai o desconto, não sei se está em todas as unidades da centenária livraria, ah, não sei nada, mas vai lá, escolhe a Saraiva da tua memória e a visite antes que acabe.
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| A Saraiva da João Mendes hoje, 15/08/23 |
Quando às 7h30 a viatura da Força Tática estacionou de ré na calçada da Faria Lima e fuzis saltaram, eu falei, puxa, o prefeito vem mesmo, autoridades na área. Mas quando os PM chegaram junto pra saber se éramos do manifesto, ah, entendi, é segurança chamada pra dar conta dos manifestantes! Manifestantes... Se eles soubessem antes que seriam só os "gatos-pingados" que éramos, ainda que representando os milhões de moradores despossuídos de qualidade de vida nessa cidade adoentada, ah, não teriam alocado bem uns 15 policiais, viaturas e até paisanas. Uma "baratinha" (lembram?) daria conta, éramos nós (é nóis viu!), muito pacíficos, munidos só com as palavras de ordem nos cartazes. O prefeito certamente nos viu ao chegar. Já nós não o vimos. Entrou camuflado em um das dezenas de carros de luxo insulfilmados que mergulharam na garganta profunda do Plaza Iguatemi. Ele viu metade da turma. A outra estava no acesso do hall principal, passou o secretário de Planejamento Gadelho, passou o relator da revisão do PDE Rodrigo Goulart (cumprimentando todos, polítitico que é), passaram muitos engravatados deixados por ubers pretos. O seminário no 11º andar chamava-se O Novo momento do mercado imobiliário, organizado pelos poderosos Secovi, Abrainc e Lide. Até aí, normal. Anormal é o prefeito estar lá, e não ter um olhar crítico, ao menos neutro, nesse momento em que todas as mídias cobrem todos os dias os impactos que a indústria das incorporações está gerando na cidade. Em que a cidade, repito, doente, tá na UTI. Então fomos lá mostrar que a cidade é também dos seus moradores, dos seus habitantes. Mostrar que existimos. E que também temos demandas, que estão muito mal atendidas. Fizemos o que tínhamos que fazer. E então? Vai nos atender ou não sr. prefeito?
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| A cidade bateu no iceberg. Quem disse não fomos nós, foi o maior escritor paulista vivo. |
Sou corintiano desde 1969, quando tio Wilson Abdalla (é, tive um tio árabe rsrs) passou em casa pra me levar ao estádio. Eu tinha 6 anos e não quis ir, mas ele me deu uma bandeira alvinegra, pesada, cheia de lantejoulas, que me ganhou. E assim, nesses mais de 50 anos acompanhando o Timão, certos jogadores ficaram mais no coração. Um deles foi o Palhinha. Quando Rivellino saiu, veio Palhinha, de Minas, como grande craque para vestir a 10. E vestiu com muita garra e categoria. Quando Sócrates chegou, formaram uma grande dupla. Está na minha seleção de 22 nomes do Timão, fácil. Pois Palhinha se foi, hoje. Jovem, pros padrões atuais, 73... Saudades.
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| Vanderlei Eustáquio de Oliveira, o Palhinha (1950-2023) Foto: Ronaldo Kotscho/ Placar |
A razão pela qual me engajei na luta contra a revisão proposta do Plano Diretor é simples: São Paulo é uma cidade às portas da UTI, por overdose. Overdose de carros e distâncias a percorrer. Overdose de prédios encobrindo horizontes. Overdose de asfalto e concreto soterrando o verde. Uma cidade que precisa de uma junta médica, no caso composta por arquitetos-urbanistas, sociólogos e economistas, para pensar, dedicada e profundamente, a terapia intensiva de recuperação. Mas, em vez disso, o que a cidade tem? Vereadores alienados, para não dizer venais, de olho no particular, às custas do social. No egoísta, às custas do humano. No ganancioso, às custas do generoso. Construir mais prédios, como esse gigantesco da foto, numa rua minúscula de Pinheiros? Atropelando sítios históricos e ambientais relevantes? Sem pensar na infraestrutura já saturada de transportes, água, esgoto e energia? São Paulo é uma cidade no limite, por isso 11 lúcidos vereadores votaram não. Porém 44 votaram sim, pela sequência da destruição. Tá na hora de defender São Paulo! Por isso me engajei na luta que, por óbvio, não terminou com a derrota de ontem.
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| Prédio gigante na minúscula rua Henrique Monteiro, Pinheiros |
13 de Junho, dia de Santo Antônio e aniver de Fernando Pessoa. Também hoje o Brittadeira completa 10 anos. É, 10 anos, 870 postagens, legal, mas isso é passado. Importa agora o que estão querendo fazer com a minha, a nossa São Paulo. A cidade já vem doente há tempos, e agora querem avacalhar de vez, com a revisão proposta do Plano Diretor Estratégico – PDE, liberando construções nos miolos de bairros, sem pagamento de outorga onerosa, etc, etc. Tipo: esse prédio que fotografei, no convite abaixo: um prédio gigantesco construído na minúscula rua Henrique Monteiro, em Pinheiros. Alguém pensou no impacto disso? E querem continuar construindo em qualquer lugar sem planejamento, sem avaliação de impacto. Por isso, contra essa revisão, é imperativo comparecer na manifestação dia 15 (5ª-f), a partir das 17h, em frente da Câmara Municipal. São Paulo, já inviável, vai afundar se nada for feito para frear essa ganância, essa sanha destrutiva.
Eugênio Bucci, meu articulista preferido no Estadão, pegou pesado com a IA - Inteligência Artificial: Olhe com ternura e compaixão para o mundo à sua volta, porque ele vai desaparecer num suspiro. Deu medo. Aí escrevi essa cartinha, que saiu no impresso de hoje. Será que vai bastar a consciência de cada um para decidir o quanto entra nesse novo mundo? Ou esse mundo vai entrar na gente como um tsunami - diz a matéria - inexorável? Viveremos pra ver isso. (Se o texto do Bucci aqui não abrir, peça que envio).
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| No Estadão impresso de hoje, 19/05/23 |
Dias em Santos, fui ao seu centro para visitar, como sempre em qualquer cidade, sebos. Pelo google estava confuso, mas entendi quando saí da virtualidade e caí na realidade: na praça dos Andradas existem mesmo 4 sebos! Uma realidade curiosa: nessa grande praça retangular, em cada canto dela uma banca de livros usados. De alvenaria. Três estavam abertas. Nelas encontrei livros e... o choro dos seus proprietários. É que o centro de Santos, como o de Sampa, está abandonado! É muito louco ver ali a 200m, no Museu do Café, e num restaurante português badalado, muita movimentação, e em volta, abandono! O centro de Santos é uma riqueza arquitetônica rara... e está abandonado! Muita gente que vai a Santos por sua praias ou por outra razão, daria um pulo na praça dos Andradas para garimpar livros usados baratinhos, nos seus 4 alfarrábios... Mas o centro de Santos, como o de Sampa, afugenta turistas. Que lamentável!
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| Um dos 4 sebos na praça dos Andradas, Santos |
Uma perdição para quem ama essa tecnologia antiga, mas super amigável, que são os livros: mais de 150 editoras estão na 5ª Feira do Livro da UNESP, todas com 50% desconto sobre o preço de catálogo. Desde a gigante Companhia das Letras até muitas editoras universitárias do Brasil afora, com títulos inesperados e preciosos, como Histórias de Africanos e Seus Descendentes no Sul da Bahia. Pronto, toca entender a ancestralidade que, pela mãe, veio da África, via Itabuna, terra do cacau... E assim outras 9 delícias. Sim, comprei pouco. Indo semestralmente a essas maravilhosas feiras de desconto (que peninha das livrarias...), já me esbaldei muito mais, certa vez foram 35... A feira vai até Domingo, das 9h às 21h, no campus da UNESP ao lado do metrô Barra Funda, no lado oposto ao Memorial da América Latina. Vai perder?
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| 50% de desconto na Feira do Livro da UNESP. |
O tal ChatGPT está para a tecnologia assim como a construção civil está para a cidade de São Paulo: uma hora tem que parar e refletir. Ou ser parada e ser refletida. O que não dá mais é, indefinidamente, os interesses econômico-financeiros prevalecerem sobre os interesses de saúde mental e meio-ambiente, das pessoas e da cidade. O mundo tá no 220! Que tal baixar a voltagem de tudo? Se até o Elon Musk tá propondo isso (aqui), segue minha cartinha do Estadão impresso de ontem...
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| No Estadão impresso de 05/04/23 |