Parei na primeira linha de Coisas Simples do Cotidiano, crônicas do mestre Rubem Braga: “Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana...” Hã? Feroz, em 1953? O que ele diria hoje?? Desabafo feito, bem, você sabe, ando espetacularmente lendo três jornais por dia (aqui), então a pauta dessas maldigitadas (hífen?) linhas bem poderia vir deles. E veio. Foi capa da Folha. A matéria me jogou nas quebradas da rua do Carmo, que quando morei ali pertinho (na Tabatinguera), anos 80, eram coalhadas desse comércio (ou serviço), e hoje tem apenas o remanescente sr. Oliveira. É, só sobrou (não soçobrou) ele pra contar histórias das máquinas de escrever antigas, as que merecem cuidado. A minha não, nunca precisou. Eta máquina fortinha, bem desenhada, elegante... Disseram as línguas que me deram que ela era de um alto dirigente português... Sim, foi um regalo muito especial que ganhei da segunda namorada (a gente esquece?). Acho que a máquina (tcheca) chegou a ela (russa) por um primo (português) que nunca soube o que veio fazer cá, desdenhava o Brasil (ele), mas ela devia gostar (de mim), foi um baita presente. Dessa máquina saiu uma monografia sobre Fernando Pessoa, minha primeira certidão judicial, as páginas intensas escritas em Iguape, e tudo mais, até que o primeiro computador chegasse (1993), já com impressora (matricial). Desde então (33 anos), quantas vezes a tirei do belo estojo protetor? Tirei hoje para a foto, e vi manchas de ferrugem preocupantes... Hora de levar no Oliveira? Agora quero saber de você, da sua máquina de escrever querida, se ainda a mantém, se nela escrevia cartas emocionadas, receitas de bolo, ou se despejava textos profissionais. Foi como a Underwood anos 40, pesadíssima, a primeira máquina que minha mãe comprou (tudo tão difícil!), o oposto absoluto dessa portátil Zeta (made in Czechoslovakia, assim está)? Ou seu xodó já era uma IBM elétrica de esfera (o que de mais moderno havia no mundo, no Universo, lembra?). Papel carbono e radex, acessórios de lei... Coisa mais paulistana, a escola de datilografia da rua Quintino Bocaiúva, fez? (Todo bairro tinha, a Uninove nasceu de uma, na Vila Maria.) E olha a loucura: ganhei essa prenda na rua da Consolação (Jardins), e como sempre fazia, fui a pé pela Oscar Freire até a 9 de Julho pegar o ônibus (pro Bixiga). Pois naquela noite (umas 23h), na esquina da Ministro, um cara me apontou (única vez!) um revólver... Ah (pedi), leva só a carteira, deixa a máquina de escrever (corajoso?)... Outros tempos, ele só pinçou o dinheiro (era fome). Quero saber da sua (máquina, fome).
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| A máquina tcheca veio de Portugal, pra mim! E seu Oliveira na capa da Folha... |

Tenho minha Olivetti até hj. Mas, sem fita 😄
ResponderExcluirAh, nada que a Amazon não resolva pra você, prezado anônimo, quando precisar datilografar alguma coisa rsrs. Valeu!
ExcluirOlá Primo EDÚ, parabéns por mais essa gostosa matéria e achado de nossa Querida Sampa.
ResponderExcluirEu também, conheci a Rua do Carmo, quando muito criança, sete a nove anos, talvez, quando minha Querida Mãe, nos levava para consultas médicas no “hospital” ou consultórios do Sindicato dos Metalúrgicos, chegávamos lá muito cedinho, por volta das 06:00 h, e, como toda criança “menino levado”, eu circulava na redondeza e já tinha uma certa curiosidade por tamanha quantidade de “lojas” ou oficinas das máquinas de escrever e também das calculadoras … maravilhosas lembranças ❗️
Seu artigo me fez voltar ao tempo mais de 50 anos … obrigado ❗️
Querido primo Marcos, seu relato me fez lembrar da tia Helena, do tio Zemar (metalúrgico responsável por suas idas à rua do Carmo rsrs), e mais curiosamente, das calculadoras! Sim, vieram as lembranças da variedade de calculadoras que tinha naquelas lojas todas ne? Hoje tudo fechado... 50 anos depois, tudo tão mudado. Só a igreja da Boa Morte, ainda de pé lá... Mentira! O SESC Carmo, de boas lembranças, ainda está lá. O sindicato também... hoje esvaziado rsrs. Valeu!! Abração primo!!
ExcluirAcho que essa Underwood chegou a ser carregada até alguma redação da Tribo Skate… rs
ResponderExcluir"Carregada" é o termo exato , aquela máquina pesava uns 10 kg! (ou até mais! rsrs). Abração manu!
ExcluirPara mim as máquinas de escrever só servem a partir de agora para os museus, nunca me dei bem com elas, era horrível quando chegava a hora de trocar as fitas, metade preta e metade vermelha, ter que usar papel carbono para fazer textos com cópias, coisas que sujavam as mãos e quando errávamos ter que passar aquele "branquinho" por cima, era outra coisa que me irritava. Enfim, tudo isso acabou, século 20 ficou para trás e, junto com ele aqueles pretos com discagem dos números. Nem tudo me traz nostalgia. Abraços.
ResponderExcluirÉ, tinha isso das fitas com duas cores, verdade! Realmente era uma lambança trocar fitas, mas fazer o que, vai ver que era mais simples (e barato) do que renovar a licença do pacote Office... rsrs. Brincadeira. Foi um avanço sim. Nesse aspecto o século 20 não deixou saudades... Em outros (ruas menos cheias e menos barulhentas, o celular menos invasivo, o tempo aparentemente mais lento, etc), ah, bate uma saudadezinha... Valeu Geraldo, aí na paz do interior da Bahia
ExcluirDiscordo caro amigo de que no século 20 as ruas em São Paulo fossem menos cheias, havia menos avenidas e os carros se apertavam nas já existentes. Do Ipiranga até a Praça da República, o busão que eu tomava, fica 50 minutos parado no trânsito da Avenida do Estado (sem tampão). Como não havia catalisadores nos escapamentos a poluição do ar era maior, os narizes ardiam e nas épocas de poucos ventos (julho e agosto). Enfim, gosto de recordar sem sentir saudades. Abraço.
ExcluirConcordo Geraldo, que as avenidas principais, como São João, Consolação e Celso Garcia, eram bem cheias há muito tempo. Mas as ruas transversais e menores não. Elas tinham menos trânsito, eram menos movimentadas. A Adriana conta que se jogava volei no meio da França Pinto aqui, na década de 70. Hoje é difícil atravessar essa rua... A saudade é dessa São Paulo menos tomada pelos carros e pelo barulho.
ExcluirDesculpem, faltou escrever TELEFONES pretos. Os jovens de hoje nem sabem como é que se fazia ligações com eles. Bye, bye século XX.
ResponderExcluirO telefone de discar era mesmo uma coisa pré-histórica! E usamos muito...
ExcluirEita, me baixou uma nostalgia aqui agora! E hoje, outra já havia passado, pela manhã, quando revisitei um dos primeiros Lps que vieram as minhas mãõs, durante a infância pelos idos dos 70… Paul Mcartney and The Wings - At the Speed of Sound…
ResponderExcluirÉ mesmo! LPs e máquinas de escrever eram coisas bem contemporâneas ne? Você, como bom músico, deve ter ainda muitas "bolachas" guardadas. E se tiver um bom toca-discos, com certeza ainda põe pra rodar... Abração Sérgio!
ExcluirCoincidência! Estou a ler um livro do Chomsky e logo de manhã o capítulo é sobre máquinas de escrever.
ResponderExcluirVocê e eu competindo para ver quem lê mais livros no ano... Competição bonita, ne Mau? Abração!
ExcluirPoxa primo parabéns, mais uma vez um texto maravilhoso e gostoso de ser lido.
ResponderExcluirObrigado pelo comentário carinhoso querido primo Rui! Abraços em todos aí em JF.
ExcluirMeus pais tinham uma Olivetti. Quando criança, adorava brincar com ela, fingindo escrever, mesmo ainda não alfabetizado. Na época em que aprendi o abecedário, já estava chegando em casa o primeiro computador. Mas guardo com carinho a lembrança dessa máquina de escrever. Deve estar lá até hoje! Abraços, Britto!
ResponderExcluirAh, não se dispensa uma Olivetti com facilidade rsrs. Bem, então você não frequentou aulas de datilografia... Curioso como a prática da digitação parece vir "dos céus", nunca ouvi falar de "aula de digitação" rsrs. Observei isso com minhas filhas, mas nunca entendi direito como acontecia rsrs. Obrigado pelos comentários sempre presentes, Felipe. Abração!
ExcluirAssim como as velhas máquinas fotográficas e vitrolas, as máquinas de escrever com todas suas deficiências, representam um tempo mais gostoso de se viver.
ResponderExcluirSim, um tempo diferente, e quiçá mais gostoso mesmo. Como eu disse acima para o Geraldo, um tempo com menos carros na rua, com menos barulho... Abração Sergio!
ExcluirAprendi a escrever a máquina em uma Olivetti portátil, pequenina. Adorava. Depois fiz Secretariado no Mackenzie e ali aprendi a datilografar sem olhar o teclado (cobriam minhas mãos) em uma Olivetti manual pesada. Era a marca que mandava no mercado. Trabalhando, vim a conhecer a IBM elétrica com fita corretiva e esferas diversas. E por fim vim a conhecer em 1995 um computador 386 e me apaixonei por computadores. Mas a primeira Olivetti guardo no coração! Era um tempo tão diferente do presente! Só quem viveu pode sentir saudade!
ResponderExcluirMeu Deus! Era a IBM elétrica, e não Olivettti!! Olha a falha de memória! Vou corrigir agora no texto. Obrigado prezado anônimo! A inesquecível IBM elétrica azul com esferas... E sim, o 386 foi meu primeiro computador, em 1993. Tinha acabado de substituir o 286. Quando entrou o 486 foi uma revolução, lembra?
ExcluirTenho uma Olivetti aposentada. Não teclo nela há muitos anos. A última vez foi pra mostrar o funcionamento ao meu filho, hoje às vésperas de completar 23 anos. Tenho também uma relíquia que comprei por impulso, encantado, do colecionador e restaurador de antiguidades Andreas Triantafyllou. Uma Blickensderfer 7, linda, coisa de mais de um século.
ResponderExcluirAbraços.
Oi Anael! Vi as fotos que me mandou da "Blickensderfer 7", realmente com um design "extravagante", eu diria até um pouco assustador! rsrs. Um jovem que olha para ela hoje pensa numa aranha, não numa máquina de escrever... Mas faz parte total da historia dos equipamentos ASDFG, como é até hoje, mesmo nos notes mais modernos ne? rsrs. Lembranças aí pra Serra da Canastra!
ExcluirASDFG da esquerda pra direta. ÇLKJH, da direita pra esquerda. Acho que era essa uma das primeiras lições das aulas de datilografia. Muito bom seu texto Francisco, é um passaporte para viajar no tempo, tipo Doctor Who, só que a história revisitada é a de cada um que a lê.
ResponderExcluirA série Doctor Who não lembro. Lembro da Túnel do Tempo... Gostoso viajar no tempo ne? Mas em pensamento, não fisicamente através de máquinas rsrs. Seria temerário ficar preso lá naquelas épocas antigas, de banheiros precários, preconceitos cristalizados, sem internet... Tem gente que pensa que, apesar dos pesares, hoje é o melhor tempo que a humanidade já viveu... Será? rsrs. Obrigado querida Rosalia!
ExcluirSou da época em que se fazia curso de datilografia, requisito básico para conseguir emprego....era um concurso pra ver quem escrevia mais rápido...e, minha maior alegria foi quando, nos Correios Central, meu primeiro emprego, chegaram as máquinas elétricas IBM, esfera...loucura total...modernidade...
ResponderExcluirAh, realmente as máquinas IBM de esfera foram uma revolução, equivalente à IA hoje, não? rsrs. Obrigado Áurea! Lembranças à querida CV!
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