segunda-feira, 2 de março de 2026

LENDO.ORG (77)

Parei na primeira linha de Coisas Simples do Cotidiano, crônicas de Rubem Braga: “Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana...” Hã? Feroz, em 1953? O que ele diria hoje?? Desabafo feito, bem, você sabe que ando espetacularmente lendo três jornais por dia (aqui), então a pauta dessas maldigitadas (hífen?) linhas bem poderia vir deles. E veio. Foi capa da Folha. A matéria me jogou nas quebradas da rua do Carmo, que quando morei ali pertinho (na Tabatinguera), anos 80, eram coalhadas desse comércio (ou serviço), e hoje tem apenas o remanescente sr. Oliveira.  É, só sobrou (não soçobrou) ele pra contar histórias das máquinas de escrever antigas, as que merecem cuidado. A minha não, nunca precisou. Eta máquina fortinha, bem desenhada, elegante...  Disseram as línguas que me deram que ela era de um alto dirigente português...  Sim, foi um regalo muito especial que ganhei da segunda namorada (a gente esquece?). Acho que a máquina (tcheca) chegou a ela (russa) por um primo (português) que nunca soube o que veio fazer cá, desdenhava o Brasil (ele), mas ela devia gostar (de mim), foi um baita presente. Dessa máquina saiu uma monografia sobre Fernando Pessoa, minha primeira certidão judicial, as páginas intensas escritas em Iguape, e tudo mais, até que o primeiro computador chegasse (1993), já com impressora (matricial).  Desde então (33 anos), quantas vezes a tirei do belo estojo protetor? Tirei hoje para a foto, e vi manchas de ferrugem preocupantes... Hora de levar no Oliveira? Agora quero saber de você, da sua máquina de escrever querida, se ainda a mantém, se nela escrevia cartas emocionadas, receitas de bolo, ou se despejava textos profissionais. Foi como a Underwood anos 40, pesadíssima, a primeira máquina que minha mãe comprou (tudo tão difícil!), o oposto absoluto dessa portátil Zeta (made in Czechoslovakia, assim está)? Ou seu xodó já era uma Olivetti elétrica de esfera (o que de mais moderno havia no mundo, no Universo, lembra?). Papel carbono e radex, acessórios de lei... Coisa mais paulistana, a escola de datilografia da rua Quintino Bocaiúva, fez? (Todo bairro tinha, a Uninove nasceu de uma, na Vila Maria.)  E olha a loucura: ganhei essa prenda na rua da Consolação (Jardins), e como sempre fazia, fui a pé pela Oscar Freire até a 9 de Julho pegar o ônibus (pro Bixiga).  Pois naquela noite (umas 23h), na esquina da Campinas, um cara me apontou (única vez!) um revólver...  Ah (pedi), leva só a carteira, deixa a máquina de escrever (corajoso?)...  Outros tempos, ele só pinçou o dinheiro (era fome). Quero saber da sua (máquina, fome).

A máquina tcheca veio de Portugal, pra mim!   E seu Oliveira na capa da Folha...