domingo, 16 de novembro de 2025

LANCES URBANOS (104)

Quando criança vivia olhando pra cima, buscando prédios. Ou melhor, pré-adolescente (10, 11 anos?), quando já se olha as coisas com intencionalidade cerebral: puxa, eu queria morar ali... ou ali, nos belos prédios da Consolação ou (nem fala) Higienópolis, amplos e confortáveis, sonhava... Era punk 6 pessoas num apto de 50m2... Adolescente (13, 14?) passei a admirar também os prédios comerciais. E o da IBM saltava. Era "o" prédio. Em caso de terremoto, queria estar nele. Com todo aquele concreto, nunca desabaria. A IBM era o Gugou, tudo impressionava. Os mainframes impressionavam, a avenida 23 de Maio impressionava... A foto é de 1977. Nesse ano (eu tinha 14, e você?) ganhei a sonhada Caloi 10 e ia ao Parque do Ibirapuera (virou um shopping!), subindo a 13 de Maio e descendo a Abílio Soares. O Ibira está ao fundo da foto, em dia útil, a julgar pelo movimento no estacionamento, que agora sumiu: dois blocos da construtora Lindenberg (blergh!) estão quase prontos ali (morar em 300m2, ok. De frente pra fumaça e pro barulho, oq?). Era então o "governo militar", eu morava no Bixiga, em seus últimos tempos do samba boêmio... E você, onde estava em 1977? (Nesse ano, nesse bairro, fui atropelado, contei aqui). Mas estamos no Paraíso, só que... parando pra pensar, não era e não é um pedaço muito "paraíso" esse aí não. Bem atrás do prédio, na rua Tutóia, ficava o DOI-Codi, órgão encarregado da repressão pesada (gritos audíveis na IBM?)... Corta pra 2018. Já distantes os "anos de chumbo", me machucava passar no viaduto Tutóia (está na foto) e ver a caterva aloprada pedindo a volta do AI-5 e dos militares...  Tomaram o local pra se exibir e colocar faixas, o buzinaço de apoio me doía no estômago... Ignorância em massa atordoa. Repetiu em 2022. (Ainda olho pra cima.) Escapamos por pouco.

Prédio-sede da IBM no bairro do Paraíso, em 1977.
(imagem: Memória Paulista - fotos antigas de SP e suas cidades (grupo no Facebook)


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

UM NOVO TEMPO... (12)

Precisei chegar aos 6.2 pra usar calça rasgadinha. Quem diria?, gostei. O que era um risco naquele índigo surrado virou um rasgadinho que rápido virou um rasgadão. E o que era incompreensível iluminou-se num estalo: não dê nada por sabido!, que o tempo só apronta com a gente... Nunca entendi essa sem-vergonhice de usar calça assim, furada na coxa ou no joelho. Que breguice! Que desleixo!... Que nada! Não é que areje mais pelo orifício, nada disso. É que simplesmente faz parte, todo objeto usado muda, e o nosso corpo é prova cabal: usamos o corpo e ele vai ganhando as marcas do uso, do atrito do vento, das mãos, do pensamento até (rugas e cãs precoces). Aí, quando o dinheiro abunda e a vontade coça, investe-se em obras de restauração mas... perigo! Pode dar um efeito Paola Oliveira (constrangedor!). Ou seja, não corra pro shopping. Usa a calça até ela acabar, que ninguém tá nem aí com o seu furinho... Depois recicla, que é sustentável (aqui). Gente, a gente muda!  Coisas nunca sonhadas, um dia são feitas! Por exemplo: comer chuchu. Ando comendo com prazer e moderação. Interromper um romance por tédio? Muito raro, mas e quando enrosca? Quase dois meses pra chegar na pág. 300, e o livro tem 600!  Especialmente quando está ali um Saramago super indicado pela Adri, ou o último do Tony Bellotto, ambientado na caipira (e sexual) Assis... Será que invado 2026 ainda com O Idiota? É, fui do chuchu a Dostoievski, pura desculpa pra falar de coisas que com certeza jamais farei (e você?): usar havaianas, comer pizza de frango com catupiry (heresia!), votar em... em... (cala-te boca!). Os medíocres estão se unindo e vão tomar o Brasil... Medíocres, unidos, jamais serão vencidos!  A onda é feia e tá vindo...

Havaianas, nem do Timão vai no pé.
(imagem: produto.mercadolivre.com.br)